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A dialética da felicidade

A dialética da felicidade

No final de ano, até mesmo os ateus são atropelados pelo espírito natalino com sua carruagem de bondade, altruísmo, perdão e esperança de que o pó de pirlimpimpim vermelho confeccionado nas baixas temperaturas dos pólos perpetue a felicidade como um estado contínuo de êxtase e sensação de uma vida bela e boa. O ar místico social dedicado ao amor, à paz universal e às compras indiscrimindadas nesta época do ano estimula o mercado a tratar da tal felicidade como um mito moderno, o que ajuda a vender produtos e serviços os mais diversos. Cientista que sou, não pude deixar de trazer os estudos sobre invadirem a discussão e desmistificar a felicidade. O Papai Noel pode até trazer a felicidade, principalmente para os 1.4 milhões de pessoas que vivem abaixo do limiar da probreza e para os 30% da população das regiões em desenvolvimento que vivem em pobreza extrema. No entanto, bens materiais não trazem mais satisfação depois de um certo ponto, adverte o psicólogo israelense Daniel Kahneman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2002. Segundo ele, depois de ter as necessidades básicas atendidas e viver com um certo luxo, o que passa a importar são os chamados “fatores não-materiais”, tais como companheirismo, famílias harmoniosa, relacionamentos amorosos e a sensação de viver uma vida significativa. Então, seria a felicidade é uma experiência individual de satisfação? Em 1972, o Butão, um país encravado nas motanhas do Himalaia entre a China e a Índia, propôs que a felicidade balizasse o índice de desenvolvimento de comunidades – Felicidade Interna Bruta (FIB), focado em 9 eixos com 33 indicadores que levam em conta o padrão de vida, bem-estar psicológico, educação, saúde, diversidade ecológica, boa governança, uso do tempo, diversidade cultural e vitalidade comunitária. Neste modelo, a felicidade também é decorrência da função de estruturas comunitárias como acesso à saúde e à educação, por exemplo. O que me intriga é que na “Terra do Tio Sam”, onde tudo funciona por haver uma das maiores estruturas sociais do planeta e o maior PIB do mundo (15 trilhões de dólares), os americanos não são os mais felizes, ocupando apenas o 11o. lugar no FIB mundial. Diante disso, cabe a perguntar: afinal, felicidade é uma experiência individual ou coletiva? É um produto da ação e escolha individual ou um fenômeno supraindividual, função de estruturas e fatos que animam a coletividade e rodeiam o indivíduo? Na última década, o crescimento da ciência das redes verificou que o conhecimento é um construto social, isso significa que conhecimento não é encontrado, mas construído coletivamente. Ou seja, as coisas, pessoas e ideias só existem por serem relativas a outras. No frigir dos ovos, nem Papai Noel e nem você existem de verdade e a felicidade é mais um peixe no cardume da relatividade das percepções e do conhecimento que por serem construções coletivas, dependem de onde e em que época você vive e quem você pensa que é. No mundo atual, dominado pelo caos, pelas transformações vertiginosas e pela ansiedade, de tão idealizada e inatingível, para muita gente, a felicidade parece algo que só o bom velhinho pode entregar. Em certo sentido, resolveríamos grande parte de nossos problemas repensando o conceito que temos do que é ser feliz. Em outra medida, aprender a lidar com a impermanência dos humores, das temperaturas, do conhecimento e das crenças não deixa de ser uma saída mais que inteligente. Além disso, adotar um comportamento inclusivo e congruente que sustente a coexistência e simultaneidade das diferentes percepções do mundo, do outro e de si mesmo só tende a fazer você mais feliz.

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